Empreiteiras e Banqueiros doaram mais de dois BILHÕES aos candidatos e partidos em todo o Brasil
“Tudo em nome da democracia e da erradicação da miséria”
Os números até agora contabilizados pelo TSE somam mais de 237 milhões de reais e somados as médias e pequenas empreiteiras, banqueiros e as grandes concessionárias de serviços públicos privadas, os números passam de dois bilhões. Nesta conta, não estão os valores repassados via “caixa dois”, aqueles em que todos sabem que doou e ninguém quer registrar que recebeu, porém alimentam as campanhas onde o dinheiro não pode aparecer, já que os candidatos costumam não declarar recursos gastos com espionagem e segurança, gastos com empresas de pesquisas, gastos com postos de gasolina na sua totalidade, gastos com agências de propagandas, gastos com bancas de advogados e gastos principalmente com acertos com lideres religiosas e comunitários no fechamento de votos na semana anterior ao sufrágio. Sem falar dos “cabos eleitorais e formiguinhas” de última honra para votar e pedir votos para a família e a sua comunidade.
Com as prestações de contas junto ao TSE de forma parcial, o retrato de como o dinheiro público vira apoio eleitoral fica evidente já que 90% das empreiteiras, banqueiros, prestadores de serviços e concessionárias que doaram grana viva para os políticos estão com contratos direitos com o governo federal, governos estaduais e até as médias e pequenas empreiteiras com obras municipais ligadas aos convênios do PAC e emendas parlamentares.
Só para esclarecer o volume de desvio de dinheiro público, atualmente o PAC da União comanda um pacote de obras com recursos superiores a 300 bilhões de reais com as grandes empreiteiras e outros 400 bilhões correm em obras federais, estaduais e municipais com obras descentralizadas através de convênios, emendas parlamentares e de bancadas em todo o Brasil.
Os órgãos de fiscalização do governo federal, já auditaram 70% das obras do PAC – Plano de Aceleração do Crescimento e foi detectado superfaturamento, corrupção, desvio de recursos e outras mazelas, que dão uma dimensão do problema e mostra o caminho de grande parte destes bilionários recursos.
As principais empreiteiras que oficialmente doaram foram OAS, Camargo Corrêa, Odebrecht, Votorantim, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, Delta e Serveng-Civilsan juntos já registram o volume de 237 milhões de reais para campanhas nestas eleições, sem computar as duas campanhas de presidente e governadores no segundo turno, que as prestações finais serão apresentadas até o final de novembro de 2010.
No site do TSE, já podemos levantar que 155 milhões de reais foram repassados por meio dos comitês financeiros ou das direções partidárias. Esse valor representa 65% das doações feitas pelas sete maiores construtoras na campanha de primeiro turno.
Os números até o memento são milionários, superiores aos maiores prêmios da mega-sena, ou seja: Queiroz Galvão, com 46,9 milhões de reais, é a primeira colocada em doações por esse formato. Logo em seguida vem a Camargo Correa, com 44 milhões, e Andrade Gutierrez, com 41 milhões e os prêmios partidários seguem caminhos sombrios ligados as grandes obras públicas do PAC e dos cofres públicos.
O que se espera é que até dezembro, prazo final para as analises técnicas e financeiras de todos os candidatos do primeiro e segundo turno, o eleitor ficará sabendo e poderá perceber com as amostras finais dos valores doados por empreiteiros, banqueiros e grandes empresas prestadoras de serviços e outras com obras diretas com os governos federal, estaduais e municipais, que, quem realmente teve chance de vencer as eleições, foram aqueles que receberam “ajuda” financeira indireta dos cofres públicos através das empreiteiras com contratos milionários de obras públicas. “A democracia e as oportunidades de ser eleito aos cargos no Brasil ainda estão atrelados aos grandes partidos ligados diretamente as grandes obras de infra-estruturas”.
Neste trem da alegria e festa do erário indiretamente nas campanhas eleitorais e com os partidos políticos deveremos computar em breve os milionários recursos doados por estatais, ex-estatais privatizadas e os grandes bancos privados. Já com as campanhas regionais de governadores, senadores e deputados, a farra com eleição vem de prestadores de serviços com recursos da educação, saúde e segurança pública, sendo essas empresas terceirizadas e ligadas diretamente aos recursos constitucionais como os maiores doadores locais. Os números aí deverão ser superiores aos 20 bilhões de reais, tudo em nome da democracia e da erradicação da miséria. Será???
Com os dados a serem apurados no próximo ano do valor de recursos oriundos das grandes empreiteiras, banqueiros, prestadores de serviços e concessionárias de serviços tipo telefonia, pedágio, energia elétrica, entre outras, para o financiamento das campanhas eleitorais e a avaliação do custo e benefício, aliado aos formatos legais e os corruptos que escandalizam a cidadania, haja vista as mazelas públicas, com a falta de segurança, saúde e educação pública eficiente, caberá uma urgente reforma política já prometida por todos os eleitos, e quem sabe, o financiamento das campanhas diretamente pelos cofres públicos e punições drásticas às manobras de desvios de condutas com caixa dois eleitoral, sendo essa a formula da ética nos pleitos.
Autor : João Cipriano
Fonte : João Cipriano
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
FALANDO DE CULTURA !!!
Autor: Marta Porto ?
Essa é a pergunta que me fazem em todos os debates, palestras, aulas e cursos. Passei a última década tentando respondê-la entre a pesquisa e a pratica de campo, nos projetos próprios, nas assessorias técnicas ou nos cargos institucionais. O resultado é uma tentativa de defender o que é essencial, o que não pode faltar, o que define um núcleo celular para a atividade política com e para a cultura, dentre as variedades de visões, propostas e crenças (ideológicas inclusive) que pululam em momentos e governos diferentes.
O propósito de uma política de cultura é ampliar a subjetividade das pessoas e com isso as oportunidades de escolhas simbólicas sobre si, o mundo que a cerca e os sonhos que nutre ao longo da vida. Por subjetividade entendo todo o campo que ativa a imaginação, a criatividade, o sonho e a sensibilidade diante de experiências estéticas e de dilemas éticos. Parto desse ponto, para definir os dois principais desafios para as políticas de cultura hoje, em especial no Brasil: o desenvolvimento estético e ético (valores) de uma sociedade. Não ignoro a importância econômica da cultura e nem os seus impactos sociais, e disso já tratei em vários textos publicados aqui, mas estimular a sensibilidade estética é algo que só cabe as políticas de cultura e ao fazer isso com ações que promovam o diálogo e a noção de alteridade é possível iniciar aquilo que Ananás Mockus, em Bogotá, intitulou de “cultura cidadã”, um projeto (ethos) comum de como projetamos a nossa vida em sociedade, como a imaginamos para além da realidade do aqui e agora.
Essa liberdade de imaginar a nossa vida individual ou em sociedade de forma criativa, rompendo com o senso comum da leitura ad nauseum dos indicadores socioeconômicos, em ação de deslocamento momentâneo dessa realidade para uma imaginação ativa e criativa, é uma grande contribuição das boas políticas de cultura para sociedades em qualquer momento de sua história. Para isso é preciso que as experiências vivenciadas pelos indivíduos desde a infância sejam ricas, sejam de qualidade do ponto de vista do conteúdo e da forma. Experiências capazes de promover o que o filósofo Renato Janine Ribeiro propõe ” é cultural toda a experiência da qual saio diferente - e mais rico - do que era antes. Seja o que for, um livro, um filme, uma exposição: estou no mundo da cultura quando isso não apenas me dá prazer (me diverte, me entretém), mas me abre a cabeça, ou para falar bonito, amplia o meu mundo emocional, aumenta a minha compreensão do mundo em que vivo, e assim, me torna mais livre para escolher o meu destino”.
É fácil? Não, não é. Primeiro porque exige uma reconceituação do que queremos com nossas politicas de cultura, depois impregnar a gestão (programas, formação de RH, infra-estrutura institucional, orçamento) de uma potência que ela ainda não tem. Em outras palavras, é preciso inovar. E entender que ricos e pobres tem direito de compartilhar a mesma qualidade de repertórios artísticos, de trocarem experiências entre si e com diferentes formas de pensar e viver o mundo, de compreenderem a história cultural desse país e da humanidade com programas e técnicas atrativos que inspirem as mais diversas faixas etárias e segmentos sociais. Enfim, de vivenciarem a experiência cultural naquilo que ela tem de mais radical: a magia de sentir-se tocado pelo espírito que anima a existência. Um percurso para pensar as politicas de cultura? Programas capazes de promover inspiração, experimentação e por fim, a criação de linguagens próprias, mas em constante diálogo com o que não conheço.
O que deve mover as politicas de cultura é reinventar os imaginários pessoais e coletivos, permitindo aos indivíduos a liberdade de fazerem escolhas que poderiam inicialmente parecer disparatadas, ou impossíveis. É estimular o sonho, a liberdade de espírito que nos leva a produzir outras formas de estar juntos. Memória e experimentação são dois elementos centrais para garantir a qualidade desse percurso. O que mais? Acreditar. Ousar. Libertar-se dos modismos atuais que pregam que válido é só o que promove “inclusão” ou que reduz indicadores de violência, ou de vulnerabilidade sociais. Por experiência própria, sei que um bom programa de cultura é capaz de virar para o bem a cabeça de muitos que dele participam, mas o mote é sempre o desenvolvimento, a oportunidade, a elegância de crer na potência, sem que ela seja interditada pelo conservadorismo de plantão que distingue “quem pode mais e quem pode menos”. Na cultura e na arte, podem todos os que encontram oportunidades para se expressar e se modificar, por que a varinha mágica do espírito aberto e fraterno algum dia os tocou. Se nessa trajetória aprendemos a LER, VER - a nós mesmos, ao mundo que vivemos, aos conteúdos que nos oferecem - e estar LÁ e AQUI, sem falsos moralismos, nem identidades que se tornam guetos, nossa tarefa está iniciada, já que em cultura, nada e nunca é concluído.
Diz a lenda Marta Porto!
Essa é a pergunta que me fazem em todos os debates, palestras, aulas e cursos. Passei a última década tentando respondê-la entre a pesquisa e a pratica de campo, nos projetos próprios, nas assessorias técnicas ou nos cargos institucionais. O resultado é uma tentativa de defender o que é essencial, o que não pode faltar, o que define um núcleo celular para a atividade política com e para a cultura, dentre as variedades de visões, propostas e crenças (ideológicas inclusive) que pululam em momentos e governos diferentes.
O propósito de uma política de cultura é ampliar a subjetividade das pessoas e com isso as oportunidades de escolhas simbólicas sobre si, o mundo que a cerca e os sonhos que nutre ao longo da vida. Por subjetividade entendo todo o campo que ativa a imaginação, a criatividade, o sonho e a sensibilidade diante de experiências estéticas e de dilemas éticos. Parto desse ponto, para definir os dois principais desafios para as políticas de cultura hoje, em especial no Brasil: o desenvolvimento estético e ético (valores) de uma sociedade. Não ignoro a importância econômica da cultura e nem os seus impactos sociais, e disso já tratei em vários textos publicados aqui, mas estimular a sensibilidade estética é algo que só cabe as políticas de cultura e ao fazer isso com ações que promovam o diálogo e a noção de alteridade é possível iniciar aquilo que Ananás Mockus, em Bogotá, intitulou de “cultura cidadã”, um projeto (ethos) comum de como projetamos a nossa vida em sociedade, como a imaginamos para além da realidade do aqui e agora.
Essa liberdade de imaginar a nossa vida individual ou em sociedade de forma criativa, rompendo com o senso comum da leitura ad nauseum dos indicadores socioeconômicos, em ação de deslocamento momentâneo dessa realidade para uma imaginação ativa e criativa, é uma grande contribuição das boas políticas de cultura para sociedades em qualquer momento de sua história. Para isso é preciso que as experiências vivenciadas pelos indivíduos desde a infância sejam ricas, sejam de qualidade do ponto de vista do conteúdo e da forma. Experiências capazes de promover o que o filósofo Renato Janine Ribeiro propõe ” é cultural toda a experiência da qual saio diferente - e mais rico - do que era antes. Seja o que for, um livro, um filme, uma exposição: estou no mundo da cultura quando isso não apenas me dá prazer (me diverte, me entretém), mas me abre a cabeça, ou para falar bonito, amplia o meu mundo emocional, aumenta a minha compreensão do mundo em que vivo, e assim, me torna mais livre para escolher o meu destino”.
É fácil? Não, não é. Primeiro porque exige uma reconceituação do que queremos com nossas politicas de cultura, depois impregnar a gestão (programas, formação de RH, infra-estrutura institucional, orçamento) de uma potência que ela ainda não tem. Em outras palavras, é preciso inovar. E entender que ricos e pobres tem direito de compartilhar a mesma qualidade de repertórios artísticos, de trocarem experiências entre si e com diferentes formas de pensar e viver o mundo, de compreenderem a história cultural desse país e da humanidade com programas e técnicas atrativos que inspirem as mais diversas faixas etárias e segmentos sociais. Enfim, de vivenciarem a experiência cultural naquilo que ela tem de mais radical: a magia de sentir-se tocado pelo espírito que anima a existência. Um percurso para pensar as politicas de cultura? Programas capazes de promover inspiração, experimentação e por fim, a criação de linguagens próprias, mas em constante diálogo com o que não conheço.
O que deve mover as politicas de cultura é reinventar os imaginários pessoais e coletivos, permitindo aos indivíduos a liberdade de fazerem escolhas que poderiam inicialmente parecer disparatadas, ou impossíveis. É estimular o sonho, a liberdade de espírito que nos leva a produzir outras formas de estar juntos. Memória e experimentação são dois elementos centrais para garantir a qualidade desse percurso. O que mais? Acreditar. Ousar. Libertar-se dos modismos atuais que pregam que válido é só o que promove “inclusão” ou que reduz indicadores de violência, ou de vulnerabilidade sociais. Por experiência própria, sei que um bom programa de cultura é capaz de virar para o bem a cabeça de muitos que dele participam, mas o mote é sempre o desenvolvimento, a oportunidade, a elegância de crer na potência, sem que ela seja interditada pelo conservadorismo de plantão que distingue “quem pode mais e quem pode menos”. Na cultura e na arte, podem todos os que encontram oportunidades para se expressar e se modificar, por que a varinha mágica do espírito aberto e fraterno algum dia os tocou. Se nessa trajetória aprendemos a LER, VER - a nós mesmos, ao mundo que vivemos, aos conteúdos que nos oferecem - e estar LÁ e AQUI, sem falsos moralismos, nem identidades que se tornam guetos, nossa tarefa está iniciada, já que em cultura, nada e nunca é concluído.
Diz a lenda Marta Porto!
QUILOMBOLAS EM CONFLITO ARMADO
Uma liderança negra e camponesa foi assassinada no povoado Charco, em
São Vicente de Férrer no último sábado (dia 30) por pistoleiros. O
camponês identificado por Fabiano foi executado pelos jagunços.
A Anistia Internacional contatou hoje o advogado Diogo Cabral,
presidente da Comissão de Direitos Humanos da seccional da Ordem dos
Advogados do Brasil (OAB-MA) para colher informações sobre a execução
de Fabiano.
Anistia Internacional encaminhará um comunicado ao governo brasileiro
e ao do Maranhão exigindo providências sobre o conflito na área e a
apuração do assassinato da liderança rural.
Área de remanescentes de quilombos, a comunidade do Charco passa por
um dos conflitos mais violentos no campo no Maranhão.
Depois da morte de Fabiano, o alvo dos pistoleiros é Manoel Santana
Costa. Ameaçado de morte, ele integra a lista da Comissão Pastoral da
Terra (CPT) que estão ameaçadas de serem assassinadas no campo.
Existem 96 famílias na área do povoado Charco. Desde 2008, o
fazendeiro identificado por Gentil Gomes ameaça os lavradores de
expulsão e morte.
O Incra fez uma vistoria na área de 2.000 hectares, quando foi
solicitada a demarcação e titulação como área quilombola. Os
relatórios do órgão são conflitantes.
Atualmente no Maranhão existem 27 conflitos pela posse da terra em
áreas quilombolas. Será preciso mais quantos assassinatos para
solucionar esses conflitos?
Fonte:http://www.itevaldo.com/
São Vicente de Férrer no último sábado (dia 30) por pistoleiros. O
camponês identificado por Fabiano foi executado pelos jagunços.
A Anistia Internacional contatou hoje o advogado Diogo Cabral,
presidente da Comissão de Direitos Humanos da seccional da Ordem dos
Advogados do Brasil (OAB-MA) para colher informações sobre a execução
de Fabiano.
Anistia Internacional encaminhará um comunicado ao governo brasileiro
e ao do Maranhão exigindo providências sobre o conflito na área e a
apuração do assassinato da liderança rural.
Área de remanescentes de quilombos, a comunidade do Charco passa por
um dos conflitos mais violentos no campo no Maranhão.
Depois da morte de Fabiano, o alvo dos pistoleiros é Manoel Santana
Costa. Ameaçado de morte, ele integra a lista da Comissão Pastoral da
Terra (CPT) que estão ameaçadas de serem assassinadas no campo.
Existem 96 famílias na área do povoado Charco. Desde 2008, o
fazendeiro identificado por Gentil Gomes ameaça os lavradores de
expulsão e morte.
O Incra fez uma vistoria na área de 2.000 hectares, quando foi
solicitada a demarcação e titulação como área quilombola. Os
relatórios do órgão são conflitantes.
Atualmente no Maranhão existem 27 conflitos pela posse da terra em
áreas quilombolas. Será preciso mais quantos assassinatos para
solucionar esses conflitos?
Fonte:http://www.itevaldo.com/
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Novembro Mês da Consciência Negra
A nossa história
Brasil Colônia
O trabalho escravo na História do Brasil
Os castigos corporais são comuns, permitidos por lei e com a permissão da Igreja. As Ordenações Filipinas sancionam a morte e mutilação dos negros como também o açoite. Segundo um regimento de 1633 o castigo é realizado por etapas: depois de bem açoitado, o senhor mandará picar o escravo com navalha ou faca que corte bem e dar-lhe com sal, sumo de limão e urina e o meterá alguns dias na corrente, e sendo fêmea, será açoitada à guisa de baioneta dentro de casa com o mesmo açoite.
Outros castigos também são utilizados: retalhamento dos fundilhos com faca e cauterização das fendas com cera quente; chicote em tripas de couro duro; a palmatória, uma argola de madeira parecida com uma mão para golpear as mãos dos escravos; o pelourinho, onde se dá o açoite: o escravo fica com as mãos presas ao alto e recebe lombadas de acordo com a infração cometida
História do Brasil / pg. 34
Luiz Koshiba e Denise Manzi F. Pereira
Ed. Atual
Por que a economia colonial e imperial baseou-se no trabalho escravo?
O latifúndio monocultor no Brasil exigia uma mão-de-obra permanente.
Era inviável a utilização de portugueses assalariados, já que a intenção não era vir para trabalhar, e sim para se enriquecer no Brasil.
O sistema capitalista nascente não tinha como pagar salários para milhares de trabalhadores, além do que, a população portuguesa que não chegava aos 3 milhões, era considerada reduzida para oferecer assalariados em grande quantidade.
Quem foi utilizado como escravo nos períodos colonial e imperial?
Embora o índio tenha sido um elemento importante para formação da colônia, o negro logo o suplantou, sendo sua mão-de-obra considerada a principal base, sobre a qual se desenvolveu a sociedade colonial brasileira.
Na fase inicial da lavoura canavieira ainda predominava o trabalho escravo indígena. Parece-nos então que argumentos tão amplamente utilizados, como inaptidão do índio brasileiro ao trabalho agrícola e sua indolência caem por terra.
A História verdadeira mostra que a reação do nativo foi tão marcante, que tornou-se uma ameaça perigosa para certas capitanias como Espírito Santo e Maranhão. Além da luta armada, os indígenas reagiram de outras maneiras, ocorrendo fugas, alcoolismo e homicídios como forma de reação à violência estabelecida pelo escravismo colonial. Todas essas formas de reação dificultavam a organização da economia colonial, podendo assim, comprometer os interesses mercantilistas da metrópole, voltados para acumulação de capital. Destaca-se também, a posição dos jesuítas, que voltados para catequese do índio, opunham-se à sua escravidão.
Apesar de todos esses obstáculos, o indígena é amplamente escravizado, permanecendo como mão-de-obra básica na economia extrativista do Norte do Brasil, mesmo após o término do período colonial.
Por que então que o índio cede lugar para o negro como escravo no Brasil?
A maior utilização do negro como mão-de-obra escrava básica na economia colonial, deve-se principalmente ao tráfico negreiro, atividade altamente rentável, tornando-se uma das principais fontes de acumulação de capitais para metrópole.
Exatamente o contrário ocorria com a escravidão indígena, já que os lucros com o comércio dos nativos não chegava até a metrópole.
Torna-se claro assim, o ponto de vista defendido pelo historiador Fernando Novais, de que "o tráfico explica a escravidão", e não o contrário.
Para os portugueses, o tráfico negreiro não era novidade, pois desde meados do século XV , o comércio de escravos era regular em Portugal, sendo que durante o reinado de D. João II o tráfico negreiro foi institucionalizado com a ação direta do Estado português, que cobrava taxas e limitava a participação de particulares.
Quanto à procedência étnica do negro, destacaram-se dois grupos importantes: os bantos, capturados na África equatorial e tropical provenientes do Congo, Guiné e Angola, e os sudaneses, vindos da África ocidental, Sudão e norte da Guiné.
Interessante observarmos que entre os elementos deste segundo grupo, destacavam-se muitos negros islamizados, responsáveis posteriormente por uma rebelião de escravos ocorrida na Bahia em 1835, conhecida como a Revolta dos Malês.
A resistência do negro: os quilombos.
Desde fugas isoladas, passando pelo suicídio, pelo banzo (nostalgia que fazia o negro cair em profunda depressão o levando à morte) e pelos quilombos, várias foram as formas de resistência do negro à escravidão, sendo a formação dos quilombos a mais conseqüente.
Os quilombos eram aldeamentos de negros que fugiam dos latifúndios, passando a viver comunitariamente. O maior e mais duradouro foi o quilombo dos Palmares, surgido em 1630 em Alagoas, estendendo-se numa área de 27 mil quilômetros quadrados até Pernambuco. Desenvolveu-se através do artesanato e do cultivo do milho, feijão, mandioca, banana e cana-de-açúcar, além do comércio com aldeias vizinhas.
Seu primeiro líder foi Ganga Zumba, substituído depois de morto por seu sobrinho Zumbi, que tornou-se a principal liderança da história de Palmares. Zumbi foi covardemente assassinado em 1695 pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, contratado por latifundiários da região.
Apesar dos muitos negros mortos em Palmaras, a quantidade de escravos crescia muito e em 1681 atingia a cifra de 1 milhão de negros trazidos somente de Angola.
O grande número de negros utilizado como escravos, deixa clara a alta lucratividade do tráfico negreiro, responsável inicialmente pelo abastecimento da lavoura canavieira em expansão nos séculos XVI e XVII e posteriormente nas áreas de mineração e da lavoura cafeeira nos séculos XVIII e XIX respectivamente.
Brasil Colônia
O trabalho escravo na História do Brasil
Os castigos corporais são comuns, permitidos por lei e com a permissão da Igreja. As Ordenações Filipinas sancionam a morte e mutilação dos negros como também o açoite. Segundo um regimento de 1633 o castigo é realizado por etapas: depois de bem açoitado, o senhor mandará picar o escravo com navalha ou faca que corte bem e dar-lhe com sal, sumo de limão e urina e o meterá alguns dias na corrente, e sendo fêmea, será açoitada à guisa de baioneta dentro de casa com o mesmo açoite.
Outros castigos também são utilizados: retalhamento dos fundilhos com faca e cauterização das fendas com cera quente; chicote em tripas de couro duro; a palmatória, uma argola de madeira parecida com uma mão para golpear as mãos dos escravos; o pelourinho, onde se dá o açoite: o escravo fica com as mãos presas ao alto e recebe lombadas de acordo com a infração cometida
História do Brasil / pg. 34
Luiz Koshiba e Denise Manzi F. Pereira
Ed. Atual
Por que a economia colonial e imperial baseou-se no trabalho escravo?
O latifúndio monocultor no Brasil exigia uma mão-de-obra permanente.
Era inviável a utilização de portugueses assalariados, já que a intenção não era vir para trabalhar, e sim para se enriquecer no Brasil.
O sistema capitalista nascente não tinha como pagar salários para milhares de trabalhadores, além do que, a população portuguesa que não chegava aos 3 milhões, era considerada reduzida para oferecer assalariados em grande quantidade.
Quem foi utilizado como escravo nos períodos colonial e imperial?
Embora o índio tenha sido um elemento importante para formação da colônia, o negro logo o suplantou, sendo sua mão-de-obra considerada a principal base, sobre a qual se desenvolveu a sociedade colonial brasileira.
Na fase inicial da lavoura canavieira ainda predominava o trabalho escravo indígena. Parece-nos então que argumentos tão amplamente utilizados, como inaptidão do índio brasileiro ao trabalho agrícola e sua indolência caem por terra.
A História verdadeira mostra que a reação do nativo foi tão marcante, que tornou-se uma ameaça perigosa para certas capitanias como Espírito Santo e Maranhão. Além da luta armada, os indígenas reagiram de outras maneiras, ocorrendo fugas, alcoolismo e homicídios como forma de reação à violência estabelecida pelo escravismo colonial. Todas essas formas de reação dificultavam a organização da economia colonial, podendo assim, comprometer os interesses mercantilistas da metrópole, voltados para acumulação de capital. Destaca-se também, a posição dos jesuítas, que voltados para catequese do índio, opunham-se à sua escravidão.
Apesar de todos esses obstáculos, o indígena é amplamente escravizado, permanecendo como mão-de-obra básica na economia extrativista do Norte do Brasil, mesmo após o término do período colonial.
Por que então que o índio cede lugar para o negro como escravo no Brasil?
A maior utilização do negro como mão-de-obra escrava básica na economia colonial, deve-se principalmente ao tráfico negreiro, atividade altamente rentável, tornando-se uma das principais fontes de acumulação de capitais para metrópole.
Exatamente o contrário ocorria com a escravidão indígena, já que os lucros com o comércio dos nativos não chegava até a metrópole.
Torna-se claro assim, o ponto de vista defendido pelo historiador Fernando Novais, de que "o tráfico explica a escravidão", e não o contrário.
Para os portugueses, o tráfico negreiro não era novidade, pois desde meados do século XV , o comércio de escravos era regular em Portugal, sendo que durante o reinado de D. João II o tráfico negreiro foi institucionalizado com a ação direta do Estado português, que cobrava taxas e limitava a participação de particulares.
Quanto à procedência étnica do negro, destacaram-se dois grupos importantes: os bantos, capturados na África equatorial e tropical provenientes do Congo, Guiné e Angola, e os sudaneses, vindos da África ocidental, Sudão e norte da Guiné.
Interessante observarmos que entre os elementos deste segundo grupo, destacavam-se muitos negros islamizados, responsáveis posteriormente por uma rebelião de escravos ocorrida na Bahia em 1835, conhecida como a Revolta dos Malês.
A resistência do negro: os quilombos.
Desde fugas isoladas, passando pelo suicídio, pelo banzo (nostalgia que fazia o negro cair em profunda depressão o levando à morte) e pelos quilombos, várias foram as formas de resistência do negro à escravidão, sendo a formação dos quilombos a mais conseqüente.
Os quilombos eram aldeamentos de negros que fugiam dos latifúndios, passando a viver comunitariamente. O maior e mais duradouro foi o quilombo dos Palmares, surgido em 1630 em Alagoas, estendendo-se numa área de 27 mil quilômetros quadrados até Pernambuco. Desenvolveu-se através do artesanato e do cultivo do milho, feijão, mandioca, banana e cana-de-açúcar, além do comércio com aldeias vizinhas.
Seu primeiro líder foi Ganga Zumba, substituído depois de morto por seu sobrinho Zumbi, que tornou-se a principal liderança da história de Palmares. Zumbi foi covardemente assassinado em 1695 pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, contratado por latifundiários da região.
Apesar dos muitos negros mortos em Palmaras, a quantidade de escravos crescia muito e em 1681 atingia a cifra de 1 milhão de negros trazidos somente de Angola.
O grande número de negros utilizado como escravos, deixa clara a alta lucratividade do tráfico negreiro, responsável inicialmente pelo abastecimento da lavoura canavieira em expansão nos séculos XVI e XVII e posteriormente nas áreas de mineração e da lavoura cafeeira nos séculos XVIII e XIX respectivamente.
VÔO LIVRE
PÁSSAROS ERRANTES
Por: Beto Ramos
Vi alguns pássaros sem asas querendo voar.
Encontrei no caminho, alguns pássaros que não poderiam cantar.
Dentro dos nossos mundos não existem gaiolas.
Mas, quando os pássaros ficam livres, insistem em não cantar.
Vi alguns pássaros com olhos de fogo.
Alguns pássaros que ficam a nos observar.
Pássaros tristes, que desejam nos devorar.
Vi alguns pássaros que não voariam no passado e nem agora.
Pássaros sem futuro.
Estes pássaros nos assustam com seus olhos de fogo.
São aves de rapina querendo ser uirapuru.
Vi alguns pássaros que insistem em nos trazer o mar.
Pássaros que não conhecem nem mesmo o nosso Rio Madeira.
Vi alguns pássaros que desejam devorar as andorinhas de agosto.
Pássaros que não sabem o que é o nosso Porto Velho porto recordações.
Vi alguns pássaros que não conhecem quem é da sete de setembro lá do km 01.
Pássaros que não sabem nem mesmo o horário da serraria das onze horas.
Vi alguns pássaros sem cor alguma.
Que não conhecem as nossas ruas.
Que nunca entraram no Mocambo.
Estes pássaros não conhecem as nossas almas.
Eles nos assustam com seus olhos de fogo.
Vi alguns pássaros querendo nos ver chorar.
Pássaros tristes que insistem em nos culpar por suas tristezas.
Dentro dos nossos mundos não existem gaiolas.
Vi alguns pássaros querendo fazer a mesma destruição da Baixa da União pelos generais.
Pássaros armados com suas incoerências.
Vi alguns pássaros loucos.
Que ficam no mais alto galho de uma árvore seca.
Apenas vi alguns pássaros.
Pássaros estranhos que não sabem o que é cultura.
Vi alguns pássaros cheios de razão.
Estes pássaros querem brigar.
Estes pássaros não vão compreender para crescer.
Vi alguns pássaros sem poesias, canções e comprometimento com a história.
Estes pássaros desejam asas para voar.
Dentro dos nossos mundos não existem gaiolas.
Vi alguns pássaros sem mundo, sem voz alguma para serem os donos da voz.
Nos nossos olhos existe luz.
O fogo dos olhos destes pássaros vai apagar.
Diz a lenda.
Por: Beto Ramos
Vi alguns pássaros sem asas querendo voar.
Encontrei no caminho, alguns pássaros que não poderiam cantar.
Dentro dos nossos mundos não existem gaiolas.
Mas, quando os pássaros ficam livres, insistem em não cantar.
Vi alguns pássaros com olhos de fogo.
Alguns pássaros que ficam a nos observar.
Pássaros tristes, que desejam nos devorar.
Vi alguns pássaros que não voariam no passado e nem agora.
Pássaros sem futuro.
Estes pássaros nos assustam com seus olhos de fogo.
São aves de rapina querendo ser uirapuru.
Vi alguns pássaros que insistem em nos trazer o mar.
Pássaros que não conhecem nem mesmo o nosso Rio Madeira.
Vi alguns pássaros que desejam devorar as andorinhas de agosto.
Pássaros que não sabem o que é o nosso Porto Velho porto recordações.
Vi alguns pássaros que não conhecem quem é da sete de setembro lá do km 01.
Pássaros que não sabem nem mesmo o horário da serraria das onze horas.
Vi alguns pássaros sem cor alguma.
Que não conhecem as nossas ruas.
Que nunca entraram no Mocambo.
Estes pássaros não conhecem as nossas almas.
Eles nos assustam com seus olhos de fogo.
Vi alguns pássaros querendo nos ver chorar.
Pássaros tristes que insistem em nos culpar por suas tristezas.
Dentro dos nossos mundos não existem gaiolas.
Vi alguns pássaros querendo fazer a mesma destruição da Baixa da União pelos generais.
Pássaros armados com suas incoerências.
Vi alguns pássaros loucos.
Que ficam no mais alto galho de uma árvore seca.
Apenas vi alguns pássaros.
Pássaros estranhos que não sabem o que é cultura.
Vi alguns pássaros cheios de razão.
Estes pássaros querem brigar.
Estes pássaros não vão compreender para crescer.
Vi alguns pássaros sem poesias, canções e comprometimento com a história.
Estes pássaros desejam asas para voar.
Dentro dos nossos mundos não existem gaiolas.
Vi alguns pássaros sem mundo, sem voz alguma para serem os donos da voz.
Nos nossos olhos existe luz.
O fogo dos olhos destes pássaros vai apagar.
Diz a lenda.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
DIA NACIONAL DA CULTURA
EVENTO
Secel comemora dia da cultura
A Gerencia de Cultura da Secel em parceria com a Coordenação dos Pontos de Cultura do estado de Rondônia e a Fundação Cultural Iaripuna vai realizar na Próxima sexta feira dia 05, dia nacional da Cultura, programação com a participação de todos os segmentos culturais em atividades em Porto Velho.
A programação foi fechada na manhã da última quinta feira (28), em reunião na sala dos Pontos de Cultura com a participação da Gerente de Cultura Cândrica Madalena – Bebel, Coordenador dos Pontos de Cultura José Monteiro e os técnicos Joaquim Pedro – Kim, Jesua Johnson. Silvio Santos, Antônio Ocampo, Gino Serrati e Cleverson da Silva Santana. A programação vai acontecer a partir das 9h00 na praça Getulio Vargas em frente ao palácio do governo. Durante todo dia o público vai apreciar exposição de artes plásticas, artesanato e comidas típicas além de roda de capoeira.
Os shows musicais estão marcados para começar as 18h00 com a apresentação da Fina Flor do Samba e convidados, coordenado pelo compositor e interprete Ernesto Melo. Dentre as atrações já confirmadas, encontramos o espetáculo, “Prisma Luminoso”, Joãozinho Carteiro, Bainha, Silvio, Assis do Areal, Audizio, Torrado e Os Anjos da Madrugada que encerrarão as festividades com o show “Alvorada para a Cultura” previsto para começar as 23h00.
O secretário da Secel Jucélis Freitas aprovou a programação e confirmou o apoio do governo estadual através da colocação de palco, sonorização e iluminação. A festa para o dia da Cultura também conta com o apoio da Fundação Iaripuna através do presidente Altair Lopes.
A coordenação informa aos artistas interessados em participar do evento, seja expondo obras de artes, artesanato, teatro, instrumentista e cantor que entre em contato através do telefone 3216-5125, falar com Monteiro ou Cleverson Santana.
Secel comemora dia da cultura
A Gerencia de Cultura da Secel em parceria com a Coordenação dos Pontos de Cultura do estado de Rondônia e a Fundação Cultural Iaripuna vai realizar na Próxima sexta feira dia 05, dia nacional da Cultura, programação com a participação de todos os segmentos culturais em atividades em Porto Velho.
A programação foi fechada na manhã da última quinta feira (28), em reunião na sala dos Pontos de Cultura com a participação da Gerente de Cultura Cândrica Madalena – Bebel, Coordenador dos Pontos de Cultura José Monteiro e os técnicos Joaquim Pedro – Kim, Jesua Johnson. Silvio Santos, Antônio Ocampo, Gino Serrati e Cleverson da Silva Santana. A programação vai acontecer a partir das 9h00 na praça Getulio Vargas em frente ao palácio do governo. Durante todo dia o público vai apreciar exposição de artes plásticas, artesanato e comidas típicas além de roda de capoeira.
Os shows musicais estão marcados para começar as 18h00 com a apresentação da Fina Flor do Samba e convidados, coordenado pelo compositor e interprete Ernesto Melo. Dentre as atrações já confirmadas, encontramos o espetáculo, “Prisma Luminoso”, Joãozinho Carteiro, Bainha, Silvio, Assis do Areal, Audizio, Torrado e Os Anjos da Madrugada que encerrarão as festividades com o show “Alvorada para a Cultura” previsto para começar as 23h00.
O secretário da Secel Jucélis Freitas aprovou a programação e confirmou o apoio do governo estadual através da colocação de palco, sonorização e iluminação. A festa para o dia da Cultura também conta com o apoio da Fundação Iaripuna através do presidente Altair Lopes.
A coordenação informa aos artistas interessados em participar do evento, seja expondo obras de artes, artesanato, teatro, instrumentista e cantor que entre em contato através do telefone 3216-5125, falar com Monteiro ou Cleverson Santana.
domingo, 31 de outubro de 2010
POR ZÉ KATRACA
Silvio Santos
JULIO MUSTAFÁ
O filho de Presidente Marques – Abunã
Há alguns anos “perseguimos” o seu Júlio Mustafá no sentido de conseguirmos entrevista-lo. Para nossa surpresa, domingo passado dia 24, quando fomos fazer as fotos que ilustraram a entrevista com a dona Nega do Yara Bar, encontramos Júlio Mustafá na rua Osório e durante um bate papo, cobramos a entrevista, então ele concordou em gravar. Ficamos de entrar em contato no decorrer da semana para marcar a gravação, acontece que durante a conversa preliminar seu Júlio começou a falar sobre as histórias passadas em Presidente Marques que para quem não sabe, era o nome oficial da Vila de Abunã local onde seu Julio nasceu e se criou. Como estava com o gravador pedi licença liguei o aparelho e enquanto o fotógrafo Juliano clicava sua câmera registrando os gestos do seu Júlio fomos explorando a história desse filho de árabe que perguntado se era rico respondeu: “Sou filho de árabe e todo árabe tem aquela impressão que pode ter muitas mulheres, então, gastei e gastei bem!”
Foi então que questionei se frequentava os bordéis que existiam a época a resposta foi diplomática: “Depois que vim pra cá fiquei um pouco devasso, gostava mesmo era da Taba do Cacique, o pessoal tinha um procedimento muito negativo sobre a Taba. A Taba do Cacique quando nasceu era um ambiente familiar. Uma mulher só ia à tua mesa, se tu permitisses. O Carmênio nos recebia muito bem assim como o garçom Carlito”
O interessante foi que assim que nos despedimos e já estávamos um pouco distante, ele gritou: “Preciso gravar outra entrevista para contar sobre a viagem de Guajará Mirim a Porto Velho”. Enquanto isso, vamos acompanhar o que temos.
ENTREVISTA
Zk – É verdade que o senhor nasceu na Vila de Abunã?
Júlio Mustafá – Quando nasci o nome ainda era Presidente Marques meu pai Said Mustafá era comerciante lá.
Zk – Vamos falar sobre o seu pai?
Júlio Mustafá – Meu pai nasceu em Jerusalém. É interessante a vinda do meu pai para esta região. Ele era palestino e saíram três irmãos porque o meu avô não queria que eles fossem para a guerra, então, saíram os três. Um ficou na França, outro foi para São Paulo e meu pai veio para Fortaleza do Abunã tutelado por Constantino Gorayeb. Até hoje não entendo porque o Constantino o tutelou até os 26 anos de idade.
Zk – Quer dizer que aos 26 anos de idade seu pai deu o grito de liberdade e foi viver por conta?
Júlio Mustafá – É mais ou menos por aí. Aos 26 anos ele veio para Abunã que a época era Presidente Marques. Em Presidente Marques ele conheceu minha mãe. O fato interessante desse encontro foi que ele não casou, se amigou porque ele já tinha filhos e sabe como é, naquela época existia muito discriminação. Fui o primeiro filho homem do casal.
Zk – Nasceu quando?
Júlio Mustafá – Nasci no dia 30 de abril de 1926 durante a noite. Quem fez o parto foi dona Santinha uma parteira muito hábil em Presidente Marques Distrito Judiciário do Município de Guajará Mirim 90 km menos da embocadura do Rio Beni.
Zk – Quer dizer que o senhor é matogrossense?
Júlio Mustafá – Sou matogrossense de coração. Presta atenção no poema “As Armas de Mato Grosso” – Brasão de minha terra/Tu que ostentas o ouro do pátrio solo abençoado/Verdor dessas matas opulentas desses campos onde vivem o gado/Tu cujo céu nos representa a expedição do Bandeirante ousado/Relembrando as emoções sanguinolentas dos heróis que nos bordam um passado ideal/No surto dessa fênix estupenda/Brasão de minha terra como és lindo e imorredouro/Verbo da tua fugida elegante/Confiamos na virtude e no ouro.
Zk – O senhor foi comerciante em Abunã. Esse comercio foi herança do seu pai?
Júlio Mustafá – Não, não herdei do meu pai. Meu pai morreu no dia 31 de dezembro de 1941 e no dia 1º de dezembro do mesmo ano me empreguei na Estrada de Ferro Madeira Mamoré onde fiquei trabalhando durante dez anos, ou seja, de 1941 a 1951.
Zk – Qual era o seu trabalho na EFMM?
Júlio Mustafá – Meu serviço era desobstrução de linha
Zk – E o que é isso?
Júlio Mustafá – É trabalhar o descarrilamento dos trens. Minha área de atuação ia de Jacy Paraná a Guajará Mirim. Eu tinha uma locomotiva sob minha responsabilidade que tinha tudo quanto era ferramenta para prestar ocorro num descarrilamento de um trem. Eu era o maquinista da máquina também. Minha missão era desobstruir a linha férrea, se dessa para encarrilhar eu encarrilhava e se via que não dava, jogava fora dos trilhos. O importante era manter o tráfego.
Zk – Depois de 1951 o senhor passou a trabalhar com que?
Júlio Mustafá – Aí fui comerciar por conta própria. Em 1958 vim para Porto Velho e 1963 fui pra São Paulo de onde voltei em 1969 com uma empresa de ônibus.
Zk – Por que o senhor fechou a empresa de ônibus a Viação Abunã?
Júlio Mustafá – O grande responsável pelo fechamento da nossa empresa de ônibus a Viação Abunã que fazia viagem entre Porto Velho, Guajará Mirim e Rio Branco no Acre, foi o fechamento do garimpo manual de cassiterita que a época proporcionava um movimento fabuloso. Imagine você que o que fechou o garimpo manual de cassiterita foi uma Portaria Ministerial não foi nenhum decreto e nem lei.
Zk – Quanto tempo a Viação Abunã ficou trafegando?
Júlio Mustafá – Foram quatro anos. Com o fechamento do garimpo tivemos que fechar porque não tinha fluxo de passageiros suficiente para manter as despesas e então liquidamos a empresa Viação Abunã Ltda. Éramos três sócios, Eu o Silvio e o José de Lima Verde.
Zk – Depois disso o senhor passou a trabalhar com o que?
Júlio Mustafá – Depois fui convidado pelo Tufy Matny e pelo Humberto Corrêa e montamos o primeiro supermercado de Porto Velho.
Zk – Esse supermercado foi instalado aonde?
Júlio Mustafá – Na realidade abrimos dois supermercados. Um na D. Pedro II com a Mal. Deodoro e o outro na Lauro Sodré com a Campos Sales no bairro da Olaria. Me desentendi com o Humberto Corrêa e então arrendei a Padaria do Raposo.
Zk – O senhor lembra quando a padaria do Raposo pegou fogo. Foi antes do incêndio do Mercado Municipal?
Júlio Mustafá – Na realidade quando o fogo destruiu a Padaria do Raposo e o Mercado Municipal eu não estava aqui, estava m orando em São Paulo.
Zk – O senhor veio de São Paulo para fazer o que em Porto Velho?
Júlio Mustafá – Vim ser gerente do Expresso Araçatuba, depois gerenciei a empresa Transporte Cocal S/A. A Cocal tinha uma frota muito grande aqui, eles compravam os veículos através da Zona Franca de Manaus e eu os desembaraçava aqui e mandava os documentos para Criciúma onde era a sede da empresa. Eles eram do Grupo Eliane muito forte, os Kaisinski eles me tinham uma estima muito grande, tanto que quando encerram as atividades aqui, queriam me levar. Não fui com medo de não me aclimatar novamente.
Zk – Vamos voltar a Abunã. O senhor ainda pegou o tempo dos grandes seringalistas?
Júlio Mustafá – Peguei sim! Os bonzões eram o velho Otávio dos Reis, Geraldo Perez, Vitor Sadeck e Antônio Augusto da Rocha, esses eram os mais importantes, eles me dispensavam consideração muito grande, porque praticamente lá em Abunã quem mexia com a Madeira Mamoré era eu, eles precisavam de vagões para transportar a borracha, 500/600 toneladas e por isso me procuravam. O velho Geraldo Perez tinha grande consideração por mim.
Zk – O senhor trabalhou como embarcadiço nos batelões que trafegavam no rio Abunã?
Júlio Mustafá – Essa minha façanha foi o seguinte: Eu era praticante de telegrafia e teve uma concorrência e quem venceu foi o Joaquim Pereira que já conhecia meu trabalho como praticante de telegrafista. Na primeira viagem ele foi sozinho mas, na segunda ele me conquistou e eu subi com ele.
Zk – Como lhe conquistou?
Júlio Mustafá – Porque ele me fez um salário de 150 Contos de Réis. Naquele tempo eu ganhava 30 Contos de Réis trabalhando nos Correios, aí ninguém me segurou fui embora. Fui com ele de Abunã a Plácido de Castro por água, isso em 1939. Nós estávamos no porto de Extrema quando estourou a 2º Guerra Mundial.
Zk – O que Joaquim Pereira transportava?
Júlio Mustafá – Ele fazia o serviço de Regatão. Ele tinha uma Galeota que transportava borracha, couro e pele de animais silvestres, castanha ele não trazia porque era muito volumoso. Fiquei na viagem com ele seis meses. Quando voltei para Abunã foi como capitalista, pois, trouxe 900 Contos de Réis de saldo. Desci e subi a cachoeira de Fortaleza do Abunã, eu o Severino e o motorista Chico Lambança.
N.R - Conto de réis é uma expressão adotada no Brasil e em Portugal para indicar um milhão de réis.. Sendo um conto de réis correspondia a mil vezes a importância de um mil-réis que era a divisionária, grafando-se o conto por Rs. 1:000$000 ou R$ 1,000000 (sendo o real 1/1.000.000 de um conto-de-réis em representação matemática decimal atual), pois o réis tinha sua representação real-imperial em "milésimos-de-mil" contos-de-réis), sendo uma moeda de grande-valor intrínseco e imperial, com representatividade em aproximadamente oito gramas de ouro. No Brasil, esta moeda foi substituída pelo cruzeiro em 1942, na razão de 1 cruzeiro por mil-réis então circulantes (fonte Wilkipédia).
Zk – Voltando ao funcionário da estrada de ferro. Por que o senhor saiu da Madeira Mamoré?
Júlio Mustafá – Saí porque me desentendi com o Jorge Caldeira Abrante que era o engenheiro residente em Presidente Marque – Abunã. Para você entender, criei uma amizade muito grande com o Dr. Brante. Só fiz aquilo com ele por que fui praticamente forçado.
Zk – Fez o que com ele?
Júlio Mustafá – Dei um tapa nele. Acontece que ele veio me repreender diante de muita bgente e eu não aguentei tamanha humilhação e mandei a mão na cara dele. Aí o Dr. Hidelgard me chamou ao telefone dizendo que eu estava suspenso e seria transferido. Então falei pra ele, nem suspenso e nem transferido, porque não tenho nada que depender de vocês, a partir de hoje não trabalho mais na Estrada de Ferro Madeira Mamoré.
Zk – E foi criar trataruga?
Júlio Mustafá – Não! Montei um bar. Comprei uma sinuca do Euro Tourinho um Bilhar e fui trabalhar por conta própria.
Zk – E aqui, antes de ir para São Paulo?
Júlio Mustafá – Antes fui comerciante de estivas aqui em Porto Velho em frente ao palácio do governo onde está o Zizi hoje no Mercado Municipal.
Zk – Quem tinha comércio no seu tempo no Mercado Municipal que hoje é o Mercado Cultural?
Júlio Mustafá – Na esquina da José de Alencar tinha o Bar Capixaba, depois o Clodomildo Gomes Bezerra (Bazxar Bezerra), depois teve o avô dessa menina senadora da República a Fátima Cleide. Era assim; Pegado a mim o Joaqui Carvalho e na esquina pela Presidente Dutra o Mário Alves com seu bar.
Zk – O senhor se considerava rico, capitalista?
Júlio Mustafá – Olha, quem tinha dinheiro em Porto Velho. Tô falando em dinheiro, e eu provo com dedclaração de renda não converso fiado. Era o Tufy Matny, João Elias, Teodorino Torquato Dias e Júlio Mustafá.
Zk – Quer dizer que o senhor era milionário?
Júlio Mustafá – O Manuel Português dono da sapataria Moderna cansou de amanhecer o dia na minha porta pedindo dinheiro emprestado. Era Cinco Mil Cruzeiros e muito mais. Naquele tempo a gente vivia traquilo, não tinha a violencia de hoje. Guardavamos dinheiro em casa como no banco. O pior de tudo é que a corsa ficava junta. O Tufy gostava de mim como o diabo, João Elias Araf virou meu compadre. Quando cheguei aqui morei num apartamento que ficava em cima de um salão de cabeleireiro que ficava em frente a casa do João Elias.
Zk – O que tinha de interessante na casa do João Elias?
Júlio Mustafá – Era que toda madrugada o pessoal, os chamado “Catega” e os comerciantes ricos chegavam para tomar café na casa dele. Coronel Enio dos Santos Pinheiro, Humberto Corrêa e muitos outros.
Zk – O senhor falou o nome de uma pessoa que era admirada pelo guaporeenses e rondonienses Coronel Enio Pinheiro. Ele teve alguma coisa a ver com o desaparecimento do Tenente Fernando?
Júlio Mustafá – Me dava muito com o Coronel Aluizio Ferreira. O caso do Tenente Fernando foi muita exploração política, todas as vezes que tinham eleições puxavam o caso do Tenente Fernando.
Zk – O senhor sabe o que provocou o desaparecimento do Tenente Fernando?
Júlio Mustafá – Acontece que quando ele desapareu disseram que o Enio dos Santos Pinheiro juntamente com o Aluizio Ferreira mandaram matar o tenente Fernando. Não foi! O Enio Pinheiro era uma pessoa de boa índole, o conheci quando ele chegou aqui como Capitão e ficou hospedado no Porto Velho Hotel (hoje é a UNIR Centro) o Aluizio Ferreira também não seria capaz de fazer ou ordenar uma coisa dessas.
Zk – O senhor é casado?
Júlio Mustafá – Sou casado desde julho de 1953, com a dona Yolanda Torres Mustafá que mora em Brasília com a minha filha Nurgian que é aposentada e com meu filho Júlio Sérgio Mustafá que administra parte de uma faculdade de propriedade da sogra dele, tem o Cezar Júlio Torres Mustafá mais conhecido que escama de peixe em Porto Velho como Cezinha e em São Paulo mora minha filha Izabel Nair Torres Mustafá.
Zk – Para encerrar. Seu Júlio Mustafá hoje vive de aplicação?
Júlio Mustafá – Vive de algumas açõeszinhas. Aplicação não porque fui muito gastador, não nego, sou filho de arabe e todo arabe tem aquela impressão que pode ter muitas mulheres, então gastei e gastei bem! Sou aposentado pelo INSS e depois do incidente com o Aderbal me indicaram para administrar os imóveis dele e ele me contratou, ele morreu e os meninos me mantiveram aqui nesse prédio da General Osório que agora já tem novos donos e esses donos me mantiveram na administração. Porém, por recomendações médicas até dezembro devo ir embora daqui.
Zk – Por que?
Júlio Mustafá – Tive um AVC e o Dr. Jacob foi me visitar e recomendou: Vou falar pra você como irmão, como médico e como amigo: “Noventa e cinco por cento da tua reabilitação está fora daqui de Rondônia”. Acontece que só quero ir quando puder andar mais um pouco.
MUSTAFA-
JULIO MUSTAFÁ
O filho de Presidente Marques – Abunã
Há alguns anos “perseguimos” o seu Júlio Mustafá no sentido de conseguirmos entrevista-lo. Para nossa surpresa, domingo passado dia 24, quando fomos fazer as fotos que ilustraram a entrevista com a dona Nega do Yara Bar, encontramos Júlio Mustafá na rua Osório e durante um bate papo, cobramos a entrevista, então ele concordou em gravar. Ficamos de entrar em contato no decorrer da semana para marcar a gravação, acontece que durante a conversa preliminar seu Júlio começou a falar sobre as histórias passadas em Presidente Marques que para quem não sabe, era o nome oficial da Vila de Abunã local onde seu Julio nasceu e se criou. Como estava com o gravador pedi licença liguei o aparelho e enquanto o fotógrafo Juliano clicava sua câmera registrando os gestos do seu Júlio fomos explorando a história desse filho de árabe que perguntado se era rico respondeu: “Sou filho de árabe e todo árabe tem aquela impressão que pode ter muitas mulheres, então, gastei e gastei bem!”
Foi então que questionei se frequentava os bordéis que existiam a época a resposta foi diplomática: “Depois que vim pra cá fiquei um pouco devasso, gostava mesmo era da Taba do Cacique, o pessoal tinha um procedimento muito negativo sobre a Taba. A Taba do Cacique quando nasceu era um ambiente familiar. Uma mulher só ia à tua mesa, se tu permitisses. O Carmênio nos recebia muito bem assim como o garçom Carlito”
O interessante foi que assim que nos despedimos e já estávamos um pouco distante, ele gritou: “Preciso gravar outra entrevista para contar sobre a viagem de Guajará Mirim a Porto Velho”. Enquanto isso, vamos acompanhar o que temos.
ENTREVISTA
Zk – É verdade que o senhor nasceu na Vila de Abunã?
Júlio Mustafá – Quando nasci o nome ainda era Presidente Marques meu pai Said Mustafá era comerciante lá.
Zk – Vamos falar sobre o seu pai?
Júlio Mustafá – Meu pai nasceu em Jerusalém. É interessante a vinda do meu pai para esta região. Ele era palestino e saíram três irmãos porque o meu avô não queria que eles fossem para a guerra, então, saíram os três. Um ficou na França, outro foi para São Paulo e meu pai veio para Fortaleza do Abunã tutelado por Constantino Gorayeb. Até hoje não entendo porque o Constantino o tutelou até os 26 anos de idade.
Zk – Quer dizer que aos 26 anos de idade seu pai deu o grito de liberdade e foi viver por conta?
Júlio Mustafá – É mais ou menos por aí. Aos 26 anos ele veio para Abunã que a época era Presidente Marques. Em Presidente Marques ele conheceu minha mãe. O fato interessante desse encontro foi que ele não casou, se amigou porque ele já tinha filhos e sabe como é, naquela época existia muito discriminação. Fui o primeiro filho homem do casal.
Zk – Nasceu quando?
Júlio Mustafá – Nasci no dia 30 de abril de 1926 durante a noite. Quem fez o parto foi dona Santinha uma parteira muito hábil em Presidente Marques Distrito Judiciário do Município de Guajará Mirim 90 km menos da embocadura do Rio Beni.
Zk – Quer dizer que o senhor é matogrossense?
Júlio Mustafá – Sou matogrossense de coração. Presta atenção no poema “As Armas de Mato Grosso” – Brasão de minha terra/Tu que ostentas o ouro do pátrio solo abençoado/Verdor dessas matas opulentas desses campos onde vivem o gado/Tu cujo céu nos representa a expedição do Bandeirante ousado/Relembrando as emoções sanguinolentas dos heróis que nos bordam um passado ideal/No surto dessa fênix estupenda/Brasão de minha terra como és lindo e imorredouro/Verbo da tua fugida elegante/Confiamos na virtude e no ouro.
Zk – O senhor foi comerciante em Abunã. Esse comercio foi herança do seu pai?
Júlio Mustafá – Não, não herdei do meu pai. Meu pai morreu no dia 31 de dezembro de 1941 e no dia 1º de dezembro do mesmo ano me empreguei na Estrada de Ferro Madeira Mamoré onde fiquei trabalhando durante dez anos, ou seja, de 1941 a 1951.
Zk – Qual era o seu trabalho na EFMM?
Júlio Mustafá – Meu serviço era desobstrução de linha
Zk – E o que é isso?
Júlio Mustafá – É trabalhar o descarrilamento dos trens. Minha área de atuação ia de Jacy Paraná a Guajará Mirim. Eu tinha uma locomotiva sob minha responsabilidade que tinha tudo quanto era ferramenta para prestar ocorro num descarrilamento de um trem. Eu era o maquinista da máquina também. Minha missão era desobstruir a linha férrea, se dessa para encarrilhar eu encarrilhava e se via que não dava, jogava fora dos trilhos. O importante era manter o tráfego.
Zk – Depois de 1951 o senhor passou a trabalhar com que?
Júlio Mustafá – Aí fui comerciar por conta própria. Em 1958 vim para Porto Velho e 1963 fui pra São Paulo de onde voltei em 1969 com uma empresa de ônibus.
Zk – Por que o senhor fechou a empresa de ônibus a Viação Abunã?
Júlio Mustafá – O grande responsável pelo fechamento da nossa empresa de ônibus a Viação Abunã que fazia viagem entre Porto Velho, Guajará Mirim e Rio Branco no Acre, foi o fechamento do garimpo manual de cassiterita que a época proporcionava um movimento fabuloso. Imagine você que o que fechou o garimpo manual de cassiterita foi uma Portaria Ministerial não foi nenhum decreto e nem lei.
Zk – Quanto tempo a Viação Abunã ficou trafegando?
Júlio Mustafá – Foram quatro anos. Com o fechamento do garimpo tivemos que fechar porque não tinha fluxo de passageiros suficiente para manter as despesas e então liquidamos a empresa Viação Abunã Ltda. Éramos três sócios, Eu o Silvio e o José de Lima Verde.
Zk – Depois disso o senhor passou a trabalhar com o que?
Júlio Mustafá – Depois fui convidado pelo Tufy Matny e pelo Humberto Corrêa e montamos o primeiro supermercado de Porto Velho.
Zk – Esse supermercado foi instalado aonde?
Júlio Mustafá – Na realidade abrimos dois supermercados. Um na D. Pedro II com a Mal. Deodoro e o outro na Lauro Sodré com a Campos Sales no bairro da Olaria. Me desentendi com o Humberto Corrêa e então arrendei a Padaria do Raposo.
Zk – O senhor lembra quando a padaria do Raposo pegou fogo. Foi antes do incêndio do Mercado Municipal?
Júlio Mustafá – Na realidade quando o fogo destruiu a Padaria do Raposo e o Mercado Municipal eu não estava aqui, estava m orando em São Paulo.
Zk – O senhor veio de São Paulo para fazer o que em Porto Velho?
Júlio Mustafá – Vim ser gerente do Expresso Araçatuba, depois gerenciei a empresa Transporte Cocal S/A. A Cocal tinha uma frota muito grande aqui, eles compravam os veículos através da Zona Franca de Manaus e eu os desembaraçava aqui e mandava os documentos para Criciúma onde era a sede da empresa. Eles eram do Grupo Eliane muito forte, os Kaisinski eles me tinham uma estima muito grande, tanto que quando encerram as atividades aqui, queriam me levar. Não fui com medo de não me aclimatar novamente.
Zk – Vamos voltar a Abunã. O senhor ainda pegou o tempo dos grandes seringalistas?
Júlio Mustafá – Peguei sim! Os bonzões eram o velho Otávio dos Reis, Geraldo Perez, Vitor Sadeck e Antônio Augusto da Rocha, esses eram os mais importantes, eles me dispensavam consideração muito grande, porque praticamente lá em Abunã quem mexia com a Madeira Mamoré era eu, eles precisavam de vagões para transportar a borracha, 500/600 toneladas e por isso me procuravam. O velho Geraldo Perez tinha grande consideração por mim.
Zk – O senhor trabalhou como embarcadiço nos batelões que trafegavam no rio Abunã?
Júlio Mustafá – Essa minha façanha foi o seguinte: Eu era praticante de telegrafia e teve uma concorrência e quem venceu foi o Joaquim Pereira que já conhecia meu trabalho como praticante de telegrafista. Na primeira viagem ele foi sozinho mas, na segunda ele me conquistou e eu subi com ele.
Zk – Como lhe conquistou?
Júlio Mustafá – Porque ele me fez um salário de 150 Contos de Réis. Naquele tempo eu ganhava 30 Contos de Réis trabalhando nos Correios, aí ninguém me segurou fui embora. Fui com ele de Abunã a Plácido de Castro por água, isso em 1939. Nós estávamos no porto de Extrema quando estourou a 2º Guerra Mundial.
Zk – O que Joaquim Pereira transportava?
Júlio Mustafá – Ele fazia o serviço de Regatão. Ele tinha uma Galeota que transportava borracha, couro e pele de animais silvestres, castanha ele não trazia porque era muito volumoso. Fiquei na viagem com ele seis meses. Quando voltei para Abunã foi como capitalista, pois, trouxe 900 Contos de Réis de saldo. Desci e subi a cachoeira de Fortaleza do Abunã, eu o Severino e o motorista Chico Lambança.
N.R - Conto de réis é uma expressão adotada no Brasil e em Portugal para indicar um milhão de réis.. Sendo um conto de réis correspondia a mil vezes a importância de um mil-réis que era a divisionária, grafando-se o conto por Rs. 1:000$000 ou R$ 1,000000 (sendo o real 1/1.000.000 de um conto-de-réis em representação matemática decimal atual), pois o réis tinha sua representação real-imperial em "milésimos-de-mil" contos-de-réis), sendo uma moeda de grande-valor intrínseco e imperial, com representatividade em aproximadamente oito gramas de ouro. No Brasil, esta moeda foi substituída pelo cruzeiro em 1942, na razão de 1 cruzeiro por mil-réis então circulantes (fonte Wilkipédia).
Zk – Voltando ao funcionário da estrada de ferro. Por que o senhor saiu da Madeira Mamoré?
Júlio Mustafá – Saí porque me desentendi com o Jorge Caldeira Abrante que era o engenheiro residente em Presidente Marque – Abunã. Para você entender, criei uma amizade muito grande com o Dr. Brante. Só fiz aquilo com ele por que fui praticamente forçado.
Zk – Fez o que com ele?
Júlio Mustafá – Dei um tapa nele. Acontece que ele veio me repreender diante de muita bgente e eu não aguentei tamanha humilhação e mandei a mão na cara dele. Aí o Dr. Hidelgard me chamou ao telefone dizendo que eu estava suspenso e seria transferido. Então falei pra ele, nem suspenso e nem transferido, porque não tenho nada que depender de vocês, a partir de hoje não trabalho mais na Estrada de Ferro Madeira Mamoré.
Zk – E foi criar trataruga?
Júlio Mustafá – Não! Montei um bar. Comprei uma sinuca do Euro Tourinho um Bilhar e fui trabalhar por conta própria.
Zk – E aqui, antes de ir para São Paulo?
Júlio Mustafá – Antes fui comerciante de estivas aqui em Porto Velho em frente ao palácio do governo onde está o Zizi hoje no Mercado Municipal.
Zk – Quem tinha comércio no seu tempo no Mercado Municipal que hoje é o Mercado Cultural?
Júlio Mustafá – Na esquina da José de Alencar tinha o Bar Capixaba, depois o Clodomildo Gomes Bezerra (Bazxar Bezerra), depois teve o avô dessa menina senadora da República a Fátima Cleide. Era assim; Pegado a mim o Joaqui Carvalho e na esquina pela Presidente Dutra o Mário Alves com seu bar.
Zk – O senhor se considerava rico, capitalista?
Júlio Mustafá – Olha, quem tinha dinheiro em Porto Velho. Tô falando em dinheiro, e eu provo com dedclaração de renda não converso fiado. Era o Tufy Matny, João Elias, Teodorino Torquato Dias e Júlio Mustafá.
Zk – Quer dizer que o senhor era milionário?
Júlio Mustafá – O Manuel Português dono da sapataria Moderna cansou de amanhecer o dia na minha porta pedindo dinheiro emprestado. Era Cinco Mil Cruzeiros e muito mais. Naquele tempo a gente vivia traquilo, não tinha a violencia de hoje. Guardavamos dinheiro em casa como no banco. O pior de tudo é que a corsa ficava junta. O Tufy gostava de mim como o diabo, João Elias Araf virou meu compadre. Quando cheguei aqui morei num apartamento que ficava em cima de um salão de cabeleireiro que ficava em frente a casa do João Elias.
Zk – O que tinha de interessante na casa do João Elias?
Júlio Mustafá – Era que toda madrugada o pessoal, os chamado “Catega” e os comerciantes ricos chegavam para tomar café na casa dele. Coronel Enio dos Santos Pinheiro, Humberto Corrêa e muitos outros.
Zk – O senhor falou o nome de uma pessoa que era admirada pelo guaporeenses e rondonienses Coronel Enio Pinheiro. Ele teve alguma coisa a ver com o desaparecimento do Tenente Fernando?
Júlio Mustafá – Me dava muito com o Coronel Aluizio Ferreira. O caso do Tenente Fernando foi muita exploração política, todas as vezes que tinham eleições puxavam o caso do Tenente Fernando.
Zk – O senhor sabe o que provocou o desaparecimento do Tenente Fernando?
Júlio Mustafá – Acontece que quando ele desapareu disseram que o Enio dos Santos Pinheiro juntamente com o Aluizio Ferreira mandaram matar o tenente Fernando. Não foi! O Enio Pinheiro era uma pessoa de boa índole, o conheci quando ele chegou aqui como Capitão e ficou hospedado no Porto Velho Hotel (hoje é a UNIR Centro) o Aluizio Ferreira também não seria capaz de fazer ou ordenar uma coisa dessas.
Zk – O senhor é casado?
Júlio Mustafá – Sou casado desde julho de 1953, com a dona Yolanda Torres Mustafá que mora em Brasília com a minha filha Nurgian que é aposentada e com meu filho Júlio Sérgio Mustafá que administra parte de uma faculdade de propriedade da sogra dele, tem o Cezar Júlio Torres Mustafá mais conhecido que escama de peixe em Porto Velho como Cezinha e em São Paulo mora minha filha Izabel Nair Torres Mustafá.
Zk – Para encerrar. Seu Júlio Mustafá hoje vive de aplicação?
Júlio Mustafá – Vive de algumas açõeszinhas. Aplicação não porque fui muito gastador, não nego, sou filho de arabe e todo arabe tem aquela impressão que pode ter muitas mulheres, então gastei e gastei bem! Sou aposentado pelo INSS e depois do incidente com o Aderbal me indicaram para administrar os imóveis dele e ele me contratou, ele morreu e os meninos me mantiveram aqui nesse prédio da General Osório que agora já tem novos donos e esses donos me mantiveram na administração. Porém, por recomendações médicas até dezembro devo ir embora daqui.
Zk – Por que?
Júlio Mustafá – Tive um AVC e o Dr. Jacob foi me visitar e recomendou: Vou falar pra você como irmão, como médico e como amigo: “Noventa e cinco por cento da tua reabilitação está fora daqui de Rondônia”. Acontece que só quero ir quando puder andar mais um pouco.
MUSTAFA-
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